
A fidelidade da luz: autenticidade e verdade na fotografia
“Admiro cada vez mais o trabalho dos fotógrafos… São eles que domam a luz.” — Gabi Tunes Vivemos um paradoxo: nunca registramos tanto e, talvez, nunca tenhamos guardado tão pouco. A generosa reflexão de Gabi Tunes sobre o “oceano de opacidade” gerado por “infindáveis telas” e “manipulações automáticas” me tocou profundamente. Ela fala de imagens “tão rasas quanto as telas que as expõem”. Essa observação captura a angústia do nosso ofício. Se todos têm câmeras que aplicam filtros automáticos, qual o sentido de “domar a luz”? A resposta, creio, está na diferença entre registro e memória. O filósofo Roland Barthes nos deu um mapa para isso em A Câmara Clara. Ele diferencia o studium do punctum. O studium é o interesse cultural, o que entendemos de forma genérica numa foto (“uma prova de natação”, “um retrato bonito”). É o que nos faz dizer “legal” e rolar a tela. A maioria das imagens rasas que nos saturam vive e morre no studium. O punctum, no entanto, é o que nos fere. É o detalhe imprevisto que nos “punge”, que nos captura pessoalmente e nos olha de volta. É o vinco da touca, o vapor exato da água numa manhã fria, o olhar exausto que só quem esteve lá reconhece. O trabalho do fotógrafo não é caçar o studium — a beleza genérica. Nosso trabalho é criar as condições para que o punctum apareça. “Domar a luz”, portanto, não é sobre técnica pura; é uma escolha ética. Walter Benjamin lamentava a perda da “aura” da arte — sua presença única no tempo e espaço — na era da reprodução. Os filtros automáticos são a epítome dessa perda: eles pasteurizam o real, trocando a aura do instante por uma estética genérica. Quando escolhemos a lente certa, a abertura exata, a sombra que revela em vez de esconder, estamos fazendo o oposto: estamos usando a técnica para proteger a aura daquele momento. Estamos sendo fiéis. Aqui, a estética (o belo e o feio) se torna uma consequência da ética (a fidelidade). O “belo”, no nosso ofício, não é o “bonitinho”, o higienizado. O belo é o fiel. É a imagem que sustenta a verdade do instante, seja ele de glória ou de exaustão. A beleza torna-se uma consequência do olhar que cuidou daquele momento. O “feio”, por outro lado, é o inautêntico, o raso, a traição da luz. Como lembra André Comte-Sponville, as virtudes essenciais desabrocham do amor. A fidelidade que buscamos na fotografia não é teimosia; é uma forma de amor. É a philia, a benevolência que cuida. O amor que não adultera para “embelezar”, mas que reconhece para proteger. Susan Sontag alertou que fotografar pode ser um ato de apropriação, de distanciamento. Mas pode ser, e acredito que deva ser, um ato de salvação. Salvar o gesto da névoa do esquecimento. Nosso ofício não é sobre produzir pixels. É sobre fornecer “ganchos” sensoriais onde a memória possa se prender. É um serviço contra a anestesia do olhar. Obrigado, Gabi. Pela sua delicada deferência. Você nos lembrou que, em meio a tantas imagens rasas, um fotógrafo que “doma a luz” está, na verdade, prestando um serviço à nossa humanidade: ajudando-nos a lembrar o que vale a pena amar.





